Chiclete

Chiclete

“E, como tudo que é coisa que promete, a gente vê, é como uma chiclete, que se prova, mastiga e deita fora, sem demora!” (Chiclete, Táxi)

A saúde é um bem. O valor de uma afetividade sã é fundamental à vida, reproduzindo-se em todas as dimensões. Este valor afirma-se quando damos pela sua falta, nas relações marcadas por poder e violência, na gestão inconstante daquilo que é básico na nossa vida, ou na incapacidade de enfrentar a atitude de quem nos afronta.

Sendo um bem, concordaremos que a saúde mental não é uma “coisa”. O nosso comportamento, e o padrão de relacionamento que desenvolvemos, não é um conjunto de elementos transitórios que possamos optar por adquirir ou descartar.

A forma como atuamos é apenas a superfície de uma história de vida que se repete no “aqui-e-agora”, nos sentimentos e pensamentos despertados por aquilo que observamos. Cada um de nós tem o seu próprio “dicionário de vida”, povoado por definições, aforismos, ilustrações… uma gramática emocional em que nos fomos construindo.

Constatar o papel dos nossos “significados pessoais” na manutenção do drama atual, pode ser desconfortável, mas é esse mesmo o ponto em que se afirma a nossa liberdade, a esperança na possibilidade de transformação da nossa história.

Quando alguém procura ajuda para o seu sofrimento, encontrará propostas que negam o seu carácter pessoal: uns dirão que é preciso definir conteúdos mentais a manter e reforçar (ditos “positivos”) e outros a eliminar; poderão dizer que um sentimento ou pensamento não merece lugar no pensamento, não tem relevância ou utilidade na vida quotidiana, apenas a prejudicando; dirão algumas propostas que é preciso deixar “os pensamentos negativos fluir” [para fora da mente]; outros ainda, dirão que se trata de “más energias” que devem ser evacuadas.

Mas, como poderá alguém “rasgar” da sua vida algo que construiu, e de que se constrói? Será possível confiar num “dicionário de vida” com folhas rasgadas, significados rasurados, sentimentos omitidos, oprimidos?

Estas propostas caracterizam-se por um sentimento de omnipotência, de tudo mudar como quem “mastiga e deita fora”. A afirmação da música ilustra um modo de controlar a realidade, sem se deixar afetar por ela, (sobre)vivendo de um modo insensível, anestesiado, desumanizado.

Esta afirmação deve servir-nos de alerta. As decisões que tomamos podem – e devem! – comportar uma opção crítica. Todos temos o direito de questionar se nos sentimos respeitados na sensibilidade das nossas diversas dimensões, se nos propõem um espaço de respeito ou se nos oferecem a alienação.

 A alienação de sentimentos e emoções criará “desertos de significado”, empobrecendo a vida mental.

Tal como uma criança que insiste em fazer-se escutar, os pensamentos descartados mostram a sua urgência. Despojada dos pensamentos que a representava, a razão da sua urgência “inflama”, irrompendo novamente à superfície da mente. Mas, desta vez, o caminho da representação está bloqueado. A representação foi banida, e o pensamento desvia-se da verdade, do amor, da sensibilidade. Aumenta a energia (sem lugar) e a violência.

O resultado é o aparecimento de sintomas de maior gravidade. Um adulto cujo medo de voar não seja sido entendido (na sua sensibilidade particular) pode temporariamente omitir esse medo, acabando por desenvolver uma desconfiança generalizada. Do ponto de vista – frio e distante – do controlo do sintoma, nada parecerá estar mal. Mas de pouco lhe servirá a omissão do sintoma, face à desorganização emocional e social. 

Qual será, então, a alternativa?

A ajuda a alguém que sofre, passará sempre pela criação de uma relação de verdade, escuta, compreensão sensível, contenção emocional, curiosidade e abertura à mudança.

                                                                                                          Sérgio Cunha                                                                                                         (Psicólogo Clínico